13 de Maio

Entre a falsa abolição, a ausência de reparação e o silêncio da igreja

ATIVISMO

Aline Frutuoso

5/13/20265 min read

Eu costumo escrever textos acadêmicos. Textos atravessados por pesquisa, método e rigor teórico. Mas hoje, utilizando-me do espaço franqueado pelo Movimento Negro Evangélico, escrevo em tom de desabafo. Escrevo a partir da dor causada pelo pecado do racismo.

O 13 de maio nunca foi, para o povo negro, uma data de celebração plena. A narrativa construída em torno da chamada “abolição” sempre serviu muito mais aos interesses da história contada pelos colonizadores do que à realidade vivida pela população negra neste país.

A escravidão não terminou porque o Brasil reconheceu a humanidade do povo negro. Ela terminou porque havia pressões internacionais, econômicas e políticas tornando aquele sistema cada vez mais insustentável. A Lei Áurea foi uma resposta estratégica às exigências externas do seu tempo. E isso foi feito sem qualquer zelo, cuidado ou compromisso real com aqueles que passaram mais de três séculos sustentando este país com seus corpos, sua força e seu sangue.

Nossos ancestrais receberam uma falsa liberdade. Sem terra, sem moradia, sem trabalho digno, sem acesso à educação e sem qualquer política de inclusão, milhares de pessoas negras libertas permaneceram sem alternativas reais de sobrevivência. Muitas retornaram às casas dos antigos senhores, agora trabalhando em troca de comida e abrigo. A escravidão havia sido formalmente abolida, mas sua lógica permanecia organizada nas estruturas da sociedade brasileira.

Isso também foi violência. Isso também foi violação da dignidade humana.

O Brasil jamais realizou um verdadeiro processo de reparação histórica. E ainda hoje, quando reivindicamos reparação, somos acusados de vitimismo por uma branquitude que continua se beneficiando das estruturas construídas pela exclusão histórica do nosso povo.

Mas denunciar uma ferida que nunca foi tratada é vitimismo? Ou seria compromisso com a verdade?

A escravidão não é apenas passado. Ela permanece viva nas desigualdades sociais, na violência do Estado, no encarceramento em massa da população negra, na insegurança alimentar, no genocídio da juventude negra, na exclusão educacional e também na intolerância religiosa que continua criminalizando corpos, culturas e espiritualidades negras.

Por isso, falar de reparação não é falar de privilégio. É falar de justiça.

Reparação é reconhecer que houve um crime histórico contra a população negra e que seus efeitos seguem sendo reproduzidos até hoje. Reparação é compromisso ético, político, social e espiritual com a reconstrução da dignidade roubada ao longo dos séculos.

E a igreja precisa urgentemente se posicionar.

É incoerente afirmar seguir a Cristo e permanecer indiferente diante do racismo. É incoerente pregar o Evangelho sem denunciar estruturas que produzem morte, exclusão e desumanização. O silêncio da igreja diante do racismo também produz violência.

Ao longo da história, muitas igrejas participaram diretamente da legitimação da escravidão ou se omitiram diante dela. E ainda hoje é doloroso perceber a ausência de posicionamentos públicos contundentes contra esse pecado estrutural.

Faltam púlpitos comprometidos com justiça racial. Faltam gestos concretos de reparação. Faltam pedidos públicos de perdão pela omissão histórica diante da dor do povo negro.

Jesus jamais foi neutro diante da injustiça. Quando inaugura seu ministério em Lucas 4:18-19, Jesus anuncia:

“O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos, recuperação da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos e apregoar o ano aceitável do Senhor.”

O ministério de Jesus sempre esteve comprometido com aqueles que foram colocados às margens. Ele tocou os corpos rejeitados, sentou-se à mesa com os desprezados, confrontou líderes religiosos hipócritas e denunciou estruturas que oprimiam os mais vulneráveis.

Em Mateus 23, Jesus dirige palavras duríssimas às lideranças religiosas do seu tempo justamente porque elas transformavam a fé em instrumento de opressão e negligenciavam “os preceitos mais importantes da Lei: a justiça, a misericórdia e a fé”.

O Evangelho nunca foi um convite à omissão confortável. O Cristo das Escrituras confronta poderes, denuncia hipocrisias e se aproxima da dor humana.

Se a igreja deseja realmente ser sinal do Reino de Deus nesta terra, ela precisa ter fome e sede de justiça. Precisa chorar com os que choram. Precisa ouvir o clamor daqueles que seguem sendo atravessados diariamente pela violência do racismo.

Mas não apenas isso: precisa combatê-lo de forma pública, pastoral, comunitária e institucional.

Há dois anos, o Movimento Negro Evangélico lançou o dossiê “388 anos de escravidão: e a igreja com isso?” como um gesto de memória, denúncia e reparação. O dossiê surgiu da urgência de romper silêncios históricos e convocar a igreja brasileira à responsabilidade ética que lhe cabe diante da escravidão e de seus desdobramentos contemporâneos.

Ainda assim, é impossível não sentir tristeza diante da inércia e da letargia de grande parte da igreja frente a essa realidade. Dói perceber como a dor do povo negro continua sendo relativizada, ignorada ou tratada como pauta secundária dentro de espaços que deveriam anunciar vida, dignidade e reconciliação.

O 13 de maio precisa deixar de ser apenas uma data simbólica no calendário nacional. Ele deve nos confrontar. Deve nos obrigar a encarar a violência histórica que fundou este país e perguntar que tipo de sociedade e que tipo de igreja estamos construindo.

Não existe reconciliação sem verdade. Não existe justiça sem reparação. Não existe Evangelho sem compromisso com os que sofrem.

Meu apelo hoje é para que a igreja abandone a neutralidade confortável e compreenda que combater o racismo não é uma pauta periférica do Evangelho. É compromisso com o próprio Cristo.

Que nossos púlpitos denunciem o racismo como pecado. Que nossas comunidades se tornem espaços reais de acolhimento, escuta, reparação e transformação. Que a dor do povo negro deixe de ser invisibilizada.

E que a igreja finalmente compreenda que não há possibilidade de testemunhar o amor de Deus permanecendo indiferente à violência racial.

A abolição seguirá incompleta enquanto o povo negro continuar lutando sozinho pelo direito de existir com dignidade.

Fraternalmente e com esperança de um maior engajamento nessa luta,


ALINE FRUTUOSO

BIOGRAFIA:

Doutoranda em Ciência da Religião pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, integra o Movimento Negro Evangélico RJ e atua na Igreja Batista do Méier. É autora de Teologia Feminista Negra: releituras da fé a partir da experiência de mulheres negras e coautora de Negritudes e Religiões: Ecos e vivências das falas negras.

Aline Frutuoso