Lente como espelho. Corpos pelo chão.

Lente como espelho. Corpos pelo chão.
80 tiros te lembram que existe pele alva e pele alvo
Quem disparou usava farda (Mais uma vez)
Quem te acusou nem lá num tava
Porque um corpo preto morto é tipo os hit das parada:
Todo mundo vê, mas não diz nada
(ISMÁLIA - Emicida)
Eu ainda me lembro do primeiro enquadro. Lembro do olhar dos policiais, do local, do primeiro pedido da identidade, a qual, naquele momento, eu havia de descobrir que não era só a do RG que queriam. Queriam a identidade que presumiam desde a hora em que me viram: um adolescente negro que andava de bicicleta atrás do seu amigo branco só podia estar tentando roubá-lo.
Senti meu corpo exposto à escolha de um policial. Senti minha identidade sendo contestada num lugar público, no calçadão da praia, com pessoas passando. Ninguém parou. Ninguém disse nada. Eu estava visível para todos e invisível ao mesmo tempo.
Foi preciso ligar para meu avô. Ele chegou sem precisar de explicação. Um homem negro retinto, que viveu o racismo inúmeras vezes na própria pele, entendeu imediatamente o que estava acontecendo. Sua presença, a de um pastor batista conhecido na cidade, foi o que me devolveu a liberdade naquele dia. Não minha inocência, porque essa nunca esteve em dúvida para mim. Mas o reconhecimento dela por quem tinha o poder de me deter.
A vergonha que senti não era minha. Era o peso de um sistema que me ensinava, naquele calçadão, qual era o meu lugar.
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A polícia no Brasil foi instituída oficialmente em 1808, com a criação da Intendência Geral de Polícia, em um contexto ainda escravocrata. Sua função central era garantir a ordem, proteger propriedades e vigiar aqueles considerados ameaça à estabilidade social. Desde sua origem, o controle dos corpos negros esteve no centro dessa estrutura. Essa marca histórica não foi superada. Ela atravessa o tempo e ajuda a compreender a forma como a segurança pública opera até hoje.
Depois da abolição, o controle dos corpos negros não desapareceu. Ele mudou de forma. A prisão passou a ocupar lugar central nessa engrenagem. A lei é formalmente igual para todos, mas sua aplicação revela seletividade persistente. Letalidade e encarceramento não são fenômenos dissociados. São capítulos de uma mesma lógica de gestão da desigualdade.
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Atualmente, ao cobrir operações policiais no Rio de Janeiro, observo como essa herança se manifesta na prática. A presença do Estado em territórios periféricos costuma se dar majoritariamente por meio da força armada. Já estive no momento da operação, nos velórios de crianças e adolescentes mortos vítimas de "balas perdidas" e presenciando o silêncio dos corações das mães, cortados por gritos ao verem corpos de jovens negros no chão.
Ao acompanhar operações policiais, sei que a história não termina quando os tiros cessam. Para alguns, ela termina ali. Para outros, continua na delegacia, na audiência de custódia, no transporte para o presídio. Nem todos os corpos ficam no chão. Muitos seguem para o confinamento. A operação é um capítulo. A prisão é outro.
Reconheço nos rostos que fotografo trajetórias que poderiam ser a minha. Essa proximidade não compromete a análise. Amplia a responsabilidade.
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Se a morte é a face mais visível da violência do Estado, o encarceramento em massa é sua engrenagem silenciosa. Segundo o último relatório do Sistema de Informações do Departamento Penitenciário Nacional (Sisdepen, 2024), divulgado pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública, o Brasil possui atualmente 670.265 pessoas privadas de liberdade. O país ocupa a terceira posição no ranking mundial de população carcerária, atrás apenas de Estados Unidos e China.
Os números revelam o perfil conhecido, mas ainda assim perturbador. 95,66% dos presos são homens. Em termos raciais, 65,59% se identificam como pretos, pardos, amarelos ou indígenas, enquanto apenas 28,57% se identificam como brancos. A concentração etária também é expressiva: 38,87% têm entre 18 e 29 anos, e 46,66% estão entre 30 e 45 anos. Trata-se majoritariamente de jovens e adultos em idade economicamente produtiva. O sistema penal brasileiro tem cor, idade e endereço.
As principais causas de condenação indicam a centralidade da política de drogas nessa engrenagem: 26,03% das prisões decorrem de condenações por tráfico de drogas. Na sequência aparecem roubo qualificado (14,77%), roubo simples (8,13%), homicídio qualificado (7,72%), homicídio simples (5,10%), estupro de vulnerável (4,93%) e associação para o tráfico (3,59%). A chamada guerra às drogas alimenta operações constantes, amplia abordagens policiais e sustenta um fluxo contínuo de prisões, muitas delas por crimes sem violência direta.
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O impacto ultrapassa os muros das unidades prisionais. Cada prisão reorganiza uma casa inteira. Mães assumem sozinhas a renda, crianças crescem com a ausência do pai, famílias passam a conviver com o estigma. Em muitos territórios, o encarceramento deixa de ser exceção e passa a ser experiência comum.
Os dados educacionais evidenciam outra camada do problema. Apenas 22,61% das pessoas privadas de liberdade estão envolvidas em atividades de ensino formal. Do total de apenados, 11,36% concluíram o ensino fundamental, 13,97% finalizaram o ensino médio e menos de 1% completaram o ensino superior.
A ausência histórica de políticas estruturantes antecede a prisão. Pesquisa do Instituto Data Favela mostra que 57% das pessoas envolvidas com o comércio de drogas afirmaram que deixariam o crime caso tivessem oportunidade de emprego ou de empreender. O dado não romantiza o delito, mas revela que a violência se reproduz em cenários marcados por ausência de trabalho, renda, educação e perspectiva de futuro. Ignorar esse contexto e concentrar a resposta exclusivamente na repressão é optar por uma política que administra consequências sem enfrentar causas.
Políticas de segurança desassociadas da garantia de uma vida longa e digna acabam reforçando desigualdades históricas. Quando a ação do Estado se apresenta quase exclusivamente por meio de operações armadas e encarceramento em massa, consolida-se uma lógica em que determinados territórios e corpos são permanentemente associados à ameaça.
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Minha trajetória atravessa essa discussão. Nasci no Guarujá e, ainda criança, fui abordado em situações que hoje reconheço como expressão de racismo institucional. Atualmente, como fotógrafo, registro operações e seus desdobramentos.
Como integrante do Movimento Negro Evangélico, considero necessário interpelar também o campo da fé. A repetição de mortes e prisões de jovens negros exige posicionamento. Uma espiritualidade que não se inquieta diante da desigualdade estrutural corre o risco de se tornar apenas retórica. A defesa da vida, em sua dimensão concreta, precisa fazer parte do debate público e religioso.
Registro essas cenas porque compreendo a memória como instrumento de responsabilização. Documentar é impedir que a violência se torne invisível.
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Enquanto políticas públicas não enfrentarem de maneira integrada segurança, desenvolvimento social e combate ao racismo estrutural, continuaremos assistindo à repetição de operações que terminam com corpos no chão, celas superlotadas e famílias atravessadas pelo luto ou pela ausência.
Naquele calçadão do Guarujá, aprendi que a pergunta não é apenas sobre quem dispara. É sobre qual modelo de sociedade estamos dispostos a sustentar. E sobre quem, nessa sociedade, tem o direito de simplesmente existir.
¹¹ Liberte os que estão sendo levados para a morte; socorra os que caminham trêmulos para a matança!
Provérbios 24:11
REFERÊNCIAS:
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BATISTA, Vera Malaguti. O medo na cidade do Rio de Janeiro: dois tempos de uma história. Rio de Janeiro: Revan, 2003.
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BRETAS, Marcos Luiz. Ordem na cidade: o exercício cotidiano da autoridade policial no Rio de Janeiro (1907–1930). Rio de Janeiro: Rocco, 1997.
DAVIS, Angela. Estarão as prisões obsoletas? Rio de Janeiro: Difel, 2018.
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WACQUANT, Loïc. As prisões da miséria. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.
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