Movimento Negro Evangélico lança campanha nacional

Campanha Não matem meus jovens mobiliza igrejas contra a violência armada

ATIVISMO

3/19/20263 min read

Campanha
Não matem meus jovens!

No Brasil, a violência tem cor, idade e território. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, pessoas negras representam mais de 75% das vítimas de mortes violentas intencionais no país. Entre jovens de 15 a 29 anos, o risco de homicídio é significativamente maior quando se trata da população negra.

A letalidade policial também atinge majoritariamente jovens negros moradores de periferias e favelas, revelando um padrão estrutural que atravessa gerações. Casos recentes reforçam que essa realidade não é estatística distante.

Para a teóloga e pastora do Ministério Casa de Profetas no Rio de Janeiro, Rose Cabral, essa realidade evidencia como o racismo segue operando como estrutura de morte no país. “No Brasil, a raça ainda é um marcador social, um verdadeiro jugo de desigualdade que condena jovens negros à morte diariamente. Como discípulos de Jesus, não podemos nos esquecer de que fomos chamados para dar continuidade à obra do nosso Mestre. A sociedade espera da Igreja os mesmos atos de justiça narrados nos Evangelhos: acolhimento aos necessitados e consolo aos que choram. Diante dessa realidade, não podemos nos calar”.

Em fevereiro deste ano, o psicólogo baiano Manoel Rocha Reis Neto, mestrando da Universidade Federal da Bahia, denunciou um episódio de racismo sofrido durante o Carnaval de Salvador. Dias depois, Manoel foi encontrado morto. O caso gerou comoção nacional e reacendeu o debate sobre os impactos do racismo estrutural e seus efeitos na saúde mental da população negra.

No Rio de Janeiro, a operação policial realizada no Complexo da Penha e no Complexo do Alemão, em 2023, deixou xx mortos e se tornou uma das mais letais da história recente do estado. A maioria das vítimas era jovem e negra. Organizações de direitos humanos classificaram a ação como expressão da política de morte que atinge desproporcionalmente esses territórios.

Campanha “Não matem
meus jovens”

Diante desse cenário, o Movimento Negro Evangélico (MNE) lança a campanha “Não matem meus jovens”, que tem como objetivo sensibilizar o campo religioso evangélico e a sociedade em geral para o enfrentamento das violências que atingem jovens negros, especialmente aquelas legitimadas por discursos fundamentalistas ou que naturalizam a morte.

A campanha mobiliza ações de comunicação digital e territorial ao longo de março, incluindo momentos de oração, denúncia pública e mobilização nas igrejas, com foco nos 21 Dias de Ativismo Contra o Racismo.

Para Gustavo Germano, teólogo, pedagogo, coordenador nacional do Movimento Negro Evangélico e membro da Igreja Ubuntu, a violência contra a jovens negros no Brasil não é fruto do acaso, mas expressão de um sistema profundamente marcado pelo racismo estrutural. “Infelizmente no Brasil, a juventude negra segue sendo dizimada de forma cruel. O pecado do racismo estrutural permanece impregnado em nossas instituições, inclusive em muitas igrejas, dessa forma continua empurrando nossos jovens todos os dias para a morte. Mas nós permaneceremos firmes. Assim como está escrito em 2 Coríntios 4, somos perseguidos, mas não abandonados; abatidos, mas não destruídos, temos nosso corpo todos os dias levado à morte como foi Jesus. Por isso, continuaremos de pé, clamando e denunciando de forma profética: parem de matar nossos jovens.”

A iniciativa também terá foco no acolhimento de mães e familiares de vítimas, mulheres que seguem de joelhos em oração pela vida de seus filhos e que enfrentam, muitas vezes sozinhas, o luto e o medo permanente.

O MNE convida as lideranças religiosas, as famílias negras, a juventude evangélica e as comunidades de fé espalhadas pelo Brasil a participarem ativamente desta iniciativa, que busca transformar a dor em ação política, cuidado comunitário, proclamação da justiça e mobilização social.