Onde Fores Irei

ONDE FORES IREI EU
O noticiário do nosso país está recheado de casos de vítimas de violência do estado, pessoas mortas ou feridas por quem tinha o dever de protegê-las. A cada novo caso o roteiro se repete com declarações oficiais dizendo que a pessoa atingida tinha envolvimento com o crime ou que o tiro não veio de agentes de segurança. Começa a Via Crucis da família.
As mulheres tem um papel fundamental para dar visibilidade aos casos e mobilizar a sociedade em torno da luta. São elas que primeiramente vão para as redes sociais e às ruas para pedir justiça por seus filhos, filhas, maridos e é o rosto delas que aparece nas capas dos jornais. Os processos se arrastam por anos, décadas e lá estão elas reunindo forças para pedir justiça, mas elas não são de ferro.
Existe um desgaste físico e emocional que atinge as mulheres familiares de vítimas do estado e a sociedade costuma não o perceber e não está interessada em amenizá-lo. Como é conviver com a dor da perda e da injustiça? Quem já olhou nos olhos de uma mãe que perdeu o filho? Como é a vida delas fora das ruas e das telas da internet, fora da luta?
Acompanhando alguns casos passei a ver a realidade dessas famílias e ver que nada é simples. Uma boa parte dessas mulheres são pessoas simples e humildes que trabalham em serviços domésticos, as chamadas “casas de família” e perdem seus empregos quando a tragédia lhes tira o filho ou parente. As famílias empregadoras não querem uma suposta “mãe de bandido’ em suas casas ou mesmo quando acreditam na inocência do jovem não querem ter uma pessoa que se expõe na mídia, que tem que faltar ao trabalho para ir a protestos ou julgamentos. Quando trabalham em escolas é parecido pois os pais das crianças não querem uma professora que tenha um filho ou parente envolvido com bandidos. E assim elas ficam sem emprego e tem que buscar outras formas de sobrevivência.
São irmãs, tias, primas, avós que passam a conviver com uma dor que nunca acaba e só aumenta devido à exclusão causada pela sociedade, mas e as igrejas? Como elas lidam com essas mulheres. As instituições, ou denominações, se calam diante dos casos. É incomum e quase inexistente o caso de alguma igreja que venha a público se pronunciar sobre mortes de filhos de seus membros pela mão armada do estado ou até mesmo de seus membros.
No dia seguinte ao Dia das Mães, uma mãe de um rapaz morto pela polícia estava em uma audiência pública falando da morte do filho. Ela contava do dilema de sentir a dor do filho morto, mas da necessidade de continuar mãe da filha que permanece viva. “Eu ainda sou mãe de uma menina, precisei celebrar o Dia das Mães com ela ontem, receber presente mesmo que meu coração de mãe esteja dilacerado por não ter mais o meu filho para também celebrar comigo esta data.”
São comuns as doenças emocionais e outros problemas físicos que se tornam mais um peso. Muitos relacionamentos não resistem à esta rotina e elas acabam vivendo em solidão afetiva também.
Os relatos aqui estão no modo totalmente resumido, apenas pequenas amostras de uma realidade que marca a vida de milhares de mulheres no país, um sofrimento para o qual nunca haverá reparação suficiente. Para sobreviver e ter forças para buscar justiça foi preciso criar sistemas de proteção, troca de experiências e fortalecimento. As redes de mães e familiares de vítimas são espaços de resistência e de reinvenção para estas mulheres.
Uma das características que mais chama atenção é o compromisso de lutar pelo caso dos outros pois entendem que o caso de uma é um pouco o caso de todas. A perda de um filho não dói apenas na mãe que não o tem mas é sentida por todas as outras, chorada e reivindicada.
É quase inevitável não lembrar de Rute e Noemi, nora e sogra, que diante da tragédia familiar e social que lhes abateu fizeram um pacto de amor e cuidado que lhes garantiu sobrevivência e entrar para a história. As mulheres de hoje fazem a luta unidas em busca de justiça e de mudanças na sociedade. Lutam por políticas públicas, mas também por mudanças na visão da população a respeito de seus familiares perdidos, pelo direito à memória e à dignidade deles após a morte.
Há quem veja estas mulheres como muito fortes como se fossem dotadas de um poder sobrenatural que as habilita a suportar tamanha dor e ainda lutar. Aliás, esta é uma forma muito presente no imaginário de muitas pessoas, como sendo uma forma de exaltar as mulheres que passam por estes processos, mas o efeito é justamente o contrário. A violência do estado que retirou seus entes queridos e toda a jornada que se segue de busca por justiça são expressões da desumanização destas mulheres por parte do poder público e da sociedade. Da mesma forma, vê-las como seres extraordinários também lhes retira a humanidade e pode, mesmo sem intenção, diminuir nossa empatia por elas pois, se são dotadas de poderes extraordinários, não necessitam de ajuda e compaixão.
São mulheres. Sentem medo, solidão, desespero. Através da união elas conseguem sorrir, sonhar e ter forças para lutar, mas continuam sendo humanas. É fundamental continuar vendo nelas suas humanidades para que gere em nós a vontade de lutar com elas para que alcancem a justiça.
O que aprendemos com elas é que há força na fraqueza e na fragilidade. É possível criar espaços onde as lágrimas são bem-vindas e a humanidade é vivenciada da forma mais visceral possível. Assim como Rute e Noemi, as mulheres familiares de vítimas do estado nos ensinam o poder da união e o compromisso com a vitória uns dos outros.


